Crítica. ‘Babylon’, um ambiente caótico que eleva o cinema um bem maior

Foto do artigo, cena de uma festa, com a Margot Robbie como Nelie

O realizador Damien Chazelle regressa ao cinema com o excêntrico Babylon, um filme realizado e escrito pelo próprio, cheio de grandes nomes do cinema e que explora os bastidores da indústria cinematográfica americana desde o início do século XX.

A narrativa desenvolve-se na Golden Age, mostrando a evolução do mundo do cinema através dos olhos de diversas personagens, principalmente do imigrante mexicano Manuel Torres (Diego Calva). O filme inicia-se com Manuel ou Manny, a transportar um elefante para uma extravagante festa nos EUA, onde diversas estrelas do cinema iriam festejar como se não houvesse amanhã e sem qualquer pudor. Nessa festa, Manny acaba por conhecer uma aspirante a atriz, Nellie LaRoy (Margot Robbie), que tal como Manny, não tem posses, mas tem um sonho, o de trabalhar na indústria do cinema. No final da festa, Manny acaba por cruzar o seu caminho com Jack Conrad (Brad Pitt), uma estrela do cinema mudo que leva a casa depois de uma noite de excesso. Conrad acaba por levar o jovem mexicano para o set no dia seguinte, iniciando assim a sua aventura pelo mundo do cinema. No set também se encontra Nellie, que conseguiu a sua primeira oportunidade como atriz através da festa. Acompanhamos a adaptação destas personagens a uma indústria em mudança, que irá mexer com as suas vidas.

Nesta obra, Chazelle abraça todo o excesso e a decadência desta época do cinema em transição, desconstruindo a magia da 7ª arte e mostrando a realidade caótica que está por detrás da tela. A escolha de personagens, como Nellie, Manny, Sidney (Jovan Adepo) e Lady Fay Zhu (Li Jun Li), pretende reforçar o lado “podre” do cinema, em que as personagens vulneráveis, como mulheres, personagens de etnias e nacionalidades diferentes que não eram tão bem aceites na sociedade americana e com uma orientação sexual que fugia do padrão. Todos eles têm de se sujeitar ao que Hollywood lhes impõe, num meio em que nem sempre se sentem eles mesmos, principalmente com uma maior importância que a moral vai ganhando na sociedade, uma sociedade onde eram vistos como um objeto e facilmente substituídos se fosse necessário.

O filme tem o seu lado cómico, feito de diálogos e muitos momentos insólitos, com base na loucura dos excessos, vícios e por vezes da estupidez das estrelas. No entanto, a comédia não domina todo o filme, que progride para uma dimensão mais digna do drama, onde a loucura acalma e o filme nos convida a refletir sobre o cinema e o papel de tudo o que envolve esta arte. Os atores que vemos parecem loucos e desequilibrados e podemos ver que por detrás da magia do ecrã pode haver uma realidade não tão perfeita, mas são essas pessoas que fizeram grandes sucessos de uma época que é indiscutivelmente mágica no ecrã, mesmo com todas as suas angústias que ainda são atuais para muitos atores hoje. Há um diálogo entre Jack Conrad e Elinor St. Jonh (Jean Smart) que não deixa ninguém indiferente. É um dos meus momentos preferidos no filme reflete no quão o cinema vai muito além de um ego e que é passado, futuro e presente.

Manu, interpretado por Diego Calva, e Jack Conrad, interpretado por Brad Pitt, numa das cenas do filme

Manu, interpretado por Diego Calva, e Jack Conrad, interpretado por Brad Pitt, numa das cenas do filme. Fonte: Divulgação IMDB

O elenco não tem nada a apontar se não o belo trabalho que fazem. Bard Pitt e Margot Robie têm interpretações dignas da sua grande carreira e não conseguimos imaginar outro ator no seu papel. Diego Calva é uma boa surpresa com uma interpretação que lhe fez valer uma nomeação para Globo de Ouro de Melhor Ator num Musical/Comédia, no seu primeiro filme de destaque após interpretar um traficante na série Narcos: México da Netflix.

Babylon provoca várias reações, faz-nos rir, sentir repulsa, e quase nos emociona por completo. Aqui está um dos problemas, este “quase”. No final de mostrar todo um mundo imundo, o realizador tenta nos fazer apaixonar na mesma, numa cena emocionante. Porém, tivemos tanto tempo a ver aquela realidade, a última cena não nos atinge de uma forma tão forte como poderia atingir.

Outro dos pontos negativos a apontar é a duração. A certa altura acabei por notar que o filme estava a ser longo, mesmo que não estivesse a desgostar da obra. É um filme denso, que começa com um ritmo muito acelerado, onde há várias coisas a processar. Contudo, o ritmo do filme acompanha a evolução da indústria e o ponto de vista dos personagens que acompanhamos, tornando-se menos eufórico ao longo do tempo. Para mim isso faz sentido no filme, mas essa quebra pode levar-nos a pensar em algum momento que o filme realmente está a ser longo.

Babylon não pode ser olhado como uma obra comum, mas sim uma obra que, no meio de todo o seu caos e defeitos, entrega-nos de uma maneira imperfeita o seu propósito, mostrar que o cinema faz parte de algo maior que qualquer um de nós.

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